AlmaNAC: o blog do Núcleo de Artes Cênicas

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TRANSITORIEDADE

Se estamos em constante mutação, por que estamos tão apegados à ideia de um eu? 

Estou em varredura, sou nômade em mim.  

Meu olho é outro e o mundo é novo. 

As coisas acontecem, e quando menos se percebe aconteceu a coisa que está. O algo está. Tudo está. Todos os bilhões de anos estão aqui. Estamos respirando tudo o que já foi, o que é e o que vai ser. Estamos na coisa aqui agora junto com a coisa que foi e que virá a ser, basta que se crie condições para ver.

NAC 2017

SAGRADO

O(a) ator/atriz deve buscar se afetar de tal maneira que o terreno seja sacrificado para dar lugar ao propósito espiritual da arte. O corpo é a obra. 

Assentamos nosso pretexto corpo para viajar além da matéria. A matéria não nos basta, ela é finita.

NAC 2017

RESPIRAÇÃO

Há que se respirar muito em todas as nossas práticas, mas não com um esforço sobrenatural, e sim no sentido pleno e prazeroso. 

A respiração é um portal essencial para o estado ampliado de consciência. 

Travar a respiração trava todo o fluxo do que é dito.

NAC 2017

PROVOCAÇÕES

Se o “eu” é potente para afetar esse mundo, como se manter nesse estado de potência se ele é um estado não-permanente e à mercê de estímulos externos que recebemos?  

Se somos afetados e afetamos diferente, é possível nos construirmos só com experiências que nos agradam?

Se todos os organismos vivos podem ser parte de um todo, existe uma onisciência da existência, uma onisciência da relação?

Não nos permitimos uma bibliografia de falhas. Só compilamos o que funciona. 

Estamos disponíveis a sair de nós mesmos para enxergar coisas que nós, a princípio, não veríamos? 

Por que o homem se nega tanto a aceitar ser homo spiritualis, se quando tem a oportunidade de ser menos racional é como se se encontrasse com sua essência? 

Afinal, de que serve o artista hoje? O comportamento social nos condiciona; por isso, se não nos transformarmos, seremos apenas condicionamento. 

É questão de vida ou morte: o artista tem que se expor de modo a provocar movimento. 

Há um caminho pior que a mediocridade que é a aceitação da mediocridade. 

Por mais que você tente deixar para trás sua opinião, como falar de um ponto de vista sem colocar sua opinião? Ou antes, por que não expressar sua opinião? Afinal, diferentes pontos de vista engrandecem um ponto de vista. 

Até que ponto a opinião cega e a falta dela cega mais ainda? Se não há debate nem análise, o que nos resta? O pré-julgamento, o “é assim porque é”, a repetição da retórica podem até convencer, mas deixa frágil qualquer argumento, transformando conteúdo em rótulos. 

Perdemos a oportunidade de “ser E não” ser para apenas “ser OU não ser”.

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PROCESSO

Desaprender para reaprender, destruir para construir.

A experimentação só acontece quando não parte do cálculo ou do atendimento à ordem externa – aquela doutrina escolar que ainda impregna nosso fazer.

É preciso aceitar e permitir o tempo dos ensinamentos e processos no nosso organismo.

Todas as práticas convergem em uma única. Tudo é uno: corpo, voz, mente e alma.

O prazer em repetir inaugurando nos possibilita descobrir, dentro do “de novo”, o novo.

É importante descobrir, mas não se apegar às descobertas. 

A percepção e a imaginação são como músculos que precisam ser insistente e atentamente estimulados. 

Somos o ensaio de algo que está por vir. Burlando a ansiedade, mas mantendo o desejo.

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PERCEPÇÃO

Respirar, caminhar, olhar, perceber e refletir são verbos fundamentais para um princípio, para um ser e para um existir.

Na ordem cotidiana, em que ter opinião é a regra, a fruição é esforço – esforço contrário, amiga do silêncio, e ambos são amigos do tempo.

A percepção do transitório que há na paisagem fixa permite que notemos nossa própria mutação.

Percebo o quanto é importante esvaziar-se numa primeira instância para encontrar assim novos estímulos e impulsos – que encontrarão, por sua vez, estímulos outros e impulsos outros e manterão a cena viva. 

São infindos os mecanismos que a mente inquieta cria para proteger-se e evitar atritos que a desloquem da zona de conforto, de seu ilusório reinado sobre o corpo. 

Nós precisamos de silêncio assim como precisamos de ar. Se nossas mentes estão saturadas de palavras e pensamentos, não há espaço para nós. 

Há um abismo entre o que sei, o que quero dizer e o que faço. 

Quando sabemos muito o que dizer, é melhor duvidar. Nada é definitivo, nem estas palavras.

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PALAVRA

Antes de dizer a palavra, é preciso descobrí-la e processá-la – reencontrar a palavra como se fosse a primeira vez e produzir sentido no momento presente, todas as vezes que for necessário pronunciá-la. 

O silêncio é algo poderoso que permite compreensões outras, mas, em excesso, pode nos limitar quando em relação ao mundo, ao outro. É preciso um equilíbrio, pois, sem a percepção e elaboração das coisas em palavras, certas preciosidades podem se perder. 

Utilizar a palavra apenas quando se alcança um limite de expressão em que ela se faz necessária.

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NECESSIDADE

O artista da cena deve ter em si desejo, a necessidade e a pulsão de comunicar, e talvez essa consciência só se faça presente em momentos que ultrapassam seu entendimento racional.

Como superar a barreira criada, que nos afasta de nós mesmos, para que possamos ser canal? 

São infindáveis as maneiras de se criar a partir da pulsação do necessário.

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OFÍCIO

A organicidade na atuação, em sentido pleno, é também sair da zona de conforto e abandonar os moldes de atuação consolidados pelo mercado baseado em modelos sem reinvenção.

Se o artista entra em cena com a pretensão de induzir determinado sentimento ao espectador, ele limita as possibilidades e o subestima.

Ser artista está vinculado a um incansável autoconhecimento.

Às vezes as mesmas questões perduram por toda uma vida, ou por toda uma obra, sem nunca se esgotarem. Isso sugere a assinatura do artista. 

Buscamos encarnAR as condições para desempenhar nosso ofício ARtístico de: manipular atmosferas, criAR subjetividades, dominar as palavras para enaltecer os silêncios. 

A obra de ARte é apenas o efêmero “tácito estético” pré-Texto que busca criAR sentidos à vida, com vida, pela vida e pelas vidas vindouras. 

Há que se ter referências que ampliem a sensibilidade, refinem o olhar, abram repertório sobre o humano. Mas não basta apenas ver. Será que estamos preparados para ver?

Em um mundo de ganhadores, de não-errantes, o peso do insucesso nos impede de respirar. Assim, nos distanciamos do prazer – quase inocente – da descoberta de si mesmo.

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NATUREZA

Estamos acostumados a ver a natureza no varejo. O rio pela torneira. A floresta no vaso. A natureza manipulada pelo homem parece ser de outra natureza. Precisamos da natureza original. Precisamos ser natureza.

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