AlmaNAC: o blog do Núcleo de Artes Cênicas

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Condicionamentos

Como saber o que, de fato, é nosso? Quais padrões, costumes e visões de mundo carregamos porque nos pertencem — e quais apenas herdamos, repetimos, incorporamos sem perceber? Em que momento nossas escolhas deixam de ser expressão autêntica e passam a ser reflexo do olhar alheio? Distinguir o que é próprio daquilo que foi moldado por expectativas externas é um dos exercícios mais desafiadores — e necessários — para quem busca autenticidade, especialmente na arte e na vida.

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RESPIRAÇÃO

Ao acessar um estado de presença por meio da respiração — como em uma meditação ativa — é possível aquietar a mente, dissolver ruídos internos e abrir espaço para outras atmosferas sensíveis. Nesse estado de escuta expandida, tornamo-nos mais receptivos ao que pulsa ao redor e dentro de nós, permitindo que novas imagens, sensações e percepções emerjam. É um preparo do corpo e da consciência para estar inteiro no instante, disponível ao desconhecido.

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SAGRADO

A fé e o mistério são nossos aliados, pois se houver interesse em perseguir o infinito, haverá interesse no mistério.

Não estamos desconectados da nossa ancestralidade, ela está, ela existe.

Indiferente de quem opera o milagre, se é o santo ou o fiel, o fato é que milagre existe e quando ele acontece é impossível negá-lo.

Ampliar as percepções é exercitar o olhar para além do visível — é permitir-se enxergar espiritualidade e matéria também naquilo que escapa às palavras. Aquilo que não é dito, mas é absolutamente sentido. O que vibra no silêncio, no intervalo, na pausa entre os gestos. O que se revela não no que se mostra, mas no que atravessa. Há uma dimensão da existência que só se acessa quando aquietamos a mente e abrimos o corpo para o que não se traduz, mas ressoa. Esse é o campo da presença sensível, onde o invisível se faz mais real do que qualquer forma.

Ouvir o que há de oculto nas palavras, ser instrumento não para falar, mas para ser falado. Comungar uma experiência que a linguagem não seja capaz de se encerrar numa palavra. Uma experiência que seja da ordem do Mistério.

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FALA

É inalcançável falar tudo o que se sente, pois o “sentir” vive em um lugar profundo. Falamos apenas sobre a superfície. O que de nós fala por nós quando nos comunicamos? Falamos as palavras ou elas nos falam?

Vazio que não é oco, silêncio que também pode ser palavra, texto que é pretexto para revelar subtexto. Comunicação que reverbera, toca e emociona.

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PROCESSO

Aproximar para distanciar pode abrir a compreensão para as diferenças, gerando um distanciamento suficiente para entender o que nos torna humanos.

Às vezes algumas respostas se tornam novas perguntas. Mesmo confuso, as dúvidas podem levá-lo ao encontro de si mesmo.

Pelo medo de ser o que se é, nos privamos de mergulhar nas águas, nos banhar, nos deliciar e até nos permitir ser água.

É visível e urgente costurar-se de dentro pra fora, realinhando corpo e natureza.

Não existe objetivo, não existe resultado. Está aí a diferença entre o artista e o atleta… O caminho é a busca, não há chegada.

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OFÍCIO

Nem quando é real, nem quando é ficção podemos deixar de fazer com plenitude, essa é a nossa responsabilidade no fazer teatral.

O artista pode ser uma antena que transmite uma possibilidade de sentido para o mundo. Ele é capaz de captar e transmitir por meio de sua expressão uma percepção do mundo em uma frequência poética, que não é a mesma do cotidiano.

Ao criar circunstâncias inaugurais, pode-se criar espaço para vivenciar a experiência e se pesquisar – sem a pretensão ou o desejo de cristalizar uma forma estanque.

Em cena, o que importa não é somente o discurso mas a possibilidade de se encontrar genuinamente com o outro. 

Somos personagens de nós mesmos. Então, como tiramos as máscaras? Livrando-nos dos condicionamentos, julgamentos e encontrando a real necessidade de nos comunicarmos. 

Criar condições para ser o que não é você e nem o personagem, mas uma energia que surge a partir desse encontro, oscilações, vibrações, ar e o momento presente. 

Deixamos fissuras visíveis em nossa dramaturgia, basta que nossos interlocutores tenham sensibilidade para perceber o quanto humanos podemos ser.

Não seria a função da arte conectar a técnica e o espiritual, permitindo ao ser humano acessar a sua verdadeira natureza?

Desaprender o modo como fazemos teatro para apreender o sentido de fazê-lo. Desaprender para não temer o desconhecido.

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IMAGINAÇÃO

A imaginação é a criatividade emergindo entre a consciência e a inconsciência, como o começo de um sonho.

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DISPONIBILIDADE

Limpar-se de pré-julgamentos nos coloca como veículo de compreensão da natureza humana. Um ponto de vista pré-concebido nos faz ter uma visão limitada das coisas, nos impedindo de sermos pontes de comunicação com o outro.

A compreensão e a mudança exigem abandono de certos preconceitos, de certos saberes, exigem um olhar sensível.

Se expor é diferente de se mostrar. Se mostrar implica querer demonstrar algo, ter a pretensão de causar efeito. Se expor tem a ver com revelar-se, estar inteiro.

Estar presente e disponível pode ser colocar-se em energia de aceitar, não de acertar.

A experiência de se aproximar, pode nos fazer enxergar as diferenças, e por consequência revelar as distâncias.

Estar diante do abismo, diante do que se sente, pode abalar o espírito. É necessário trazer com cuidado ou até mesmo arrancar tudo que possa estar silenciado por algum motivo.

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CORPO

As práticas que levam ao corpo equilibrado podem colaborar para ampliar a consciência e a visão de mundo. O corpo equilibrado permite um maior contato consigo e com o outro.

O corpo se reorganiza na profundidade da queda em si mesmo, criando um mosaico de imagens e sensações que se (des)organizam apoiadas na vibração do ineditismo.

Os condicionamentos corporais que nos marcam ao longo da vida, seja pelo trabalho, traumas, medos ou fugas, formam retalhos sobre o corpo, limitando, condicionando e desorganizando a postura, impedindo assim de encontrar um corpo neutro para que qualquer silêncio proposto seja ouvido.

A estrutura corporal se forma a partir do movimento e em função da liberdade, em direção a autonomia. Quando desorganizados, desrespeitamos nossa natureza e nos aprisionamos em nós mesmos.

O estado de neutralidade possibilita que o nosso corpo se encontre propício à criação. 

O alinhamento da nossa fonte de equilíbrio estrutural, condizente com nossa natureza humana, reorganiza a bagunça que adquirimos no decorrer da vida. Para uma boa edificação, se faz necessário um bom assoalho.

Muito de nossa postura se dá num aparato de coisas que nos acontece no decorrer da vida. Temos nossas vidas escritas e compostas em nossos corpos, as cicatrizes permanecem, ainda que não as desejássemos. Toda uma estrutura de vida contada pela estrutura do corpo.

A coluna ativa conecta o céu e a terra. O corpo facilita a mente a entrar em um estado de constante atenção e se relaciona com a qualidade de disponibilidade almejada. Conexão entre terra e céu nos fortalece enquanto artista, para instigar e provocar a sociedade na direção ao sensível.

Executar não é o foco e não tem certo ou errado. Se apresentam como oportunidade de investigação partindo de um princípio, com foco em perceber como o corpo pode experimentá-lo, quais os limites, como reage e como se reorganiza, física e mentalmente.

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ALTERIDADE

O outro é desconhecido, porém eu também me desconheço, ao ver o outro, é possível observar a si próprio. Se identifico algo, é porque este habita em mim. 

Ser delicado consigo e degustar o tempo-escuta individual, pode ampliar a percepção do coletivo.

Reconhecer o outro é perceber que ele é espelho de diversas possibilidades de existência. Para conhecer a si mesmo é preciso reconhecer o outro e se reconhecer nele através de suas experiências.

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