6 de abril de 2023
É preciso se atentar aos pontos de tensão, como os joelhos, ombro, pescoço, buscando uma respiração consciente, e o corpo no eixo.
É necessário joelhos destravados para o corpo fluir, boca entreaberta para o ar transitar, vetores da coluna despertos para uma postura ativa, cabeça bem posicionada para não interromper o alinhamento da coluna.
Perceber as alterações positivas em nosso corpo e também nos corpos do outros é estimulante, pela liberdade de saber que o corpo pode mais, pode ir além, pode se transformar, se a decisão for essa.
Em que momento as partes do meu corpo são convidadas a participar do movimento? Eu respeito esse tempo? Qual a duração? Quando termina? Por que interrompo esse fluxo? Permito que essa pesquisa aconteça ou só realizo?
Eu tenho um corpo. E ele é meu templo sagrado. Através dele e por ele, atingir minha alma, tocar o divino. E não há separação.
O que fizemos com nossos corpos? Como o deixamos? Isso é resultado de uma forma de “defesa”? Como podemos enfrentar essa vida que temos, a cidade que vivemos, sem descontar em nosso físico? Será que conseguimos fazer isso? Será que é uma questão de abstrair? Ou é somente uma questão de saber lidar com tudo isso?
É surpreendente perceber o quanto nosso corpo pode nos dar e o quanto limitamos a fazer com ele apenas o básico, ainda de forma “travada”, gastando energia e partes desnecessárias.
Entender que as partes do nosso corpo são independentes torna o ator mais consciente e permite que ele mantenha seu instrumento ativado. Assim, a criação ganha espaço para surpreender. Consciência e prontidão permitem que algo seja criado e a imaginação só é visível quando algo concreto é realizado. O corpo é um apoio.
E com nosso corpo vamos experimentando topografar nossos acidentes geográficos, necessários para a descrição e representação das nossas superfícies, localização, orientação, até nos embriagar em nosso próprio estado e fazer do nosso físico visível, invisível.
A respiração movimenta, traz estado, um corpo; ou o corpo traz essa respiração, esse estado? O que se passa e não foi dito, mas está ali naquele corpo?
É preciso (re)conhecê-lo. Ver qual parte precisa de cuidados, checar quando foi sua fabricação, se é necessário alguma manutenção ou limpeza, enfim, perceber cada detalhe de nosso instrumento. A partir de tal percepção é que é possível afiná-lo de acordo com as necessidades que tenho para a construção da minha poética.
Mudanças sutis dos apoios do corpo (como trocar o apoio dos pés, andando com os pés abertos, depois com o apoio na parte externa dos pés, depois com apoio na frente dos pés, ou o apoio do peito (tórax) para frente, depois com o queixo para frente) criam espaços novos, fazendo uma diferença no todo, trazendo um novo estado e ativando a imaginação para uma nova possibilidade de ser.
Ativar o “J” te permite dar leveza ou densidade, mais ritmo ou menos ritmo para acompanhar essa leveza ou essa densidade, aliadas à respiração. A massa ficcional atenta, percebendo e construindo a respiração, controlando o ritmo, vivo, magnético.
Herzog nos sugere um olhar para nosso corpo como uma caverna “intocada”, como devemos cuidar dele, fazer sua manutenção, observar, investigar, estudar; questões que provocam uma “arqueologia do corpo”.
Use seu corpo todo, não invalide seu pulmão, suas pernas, seus peitos, sua boca, toma consciência dos seus pontos de apoio, coluna, língua, diafragma, faça o texto passar pelo seu organismo e depois esqueça-se de si.
NAC 2014