AlmaNAC: o blog do Núcleo de Artes Cênicas

Aforismos

IMAGINAÇÃO

É livre, é suprema é de repente. E nada é tão surpreendente quanto o de repente. O de repente precisa de espaço para acontecer.

É preciso exercitar para acessar a imaginação com mais liberdade ou sem limite, para que possamos transformar a imaginação em algo tão vital como a respiração.

Trabalhar o SER aflora a sua imaginação, te expande.

NAC 2014

CORPO

É preciso se atentar aos pontos de tensão, como os joelhos, ombro, pescoço, buscando uma respiração consciente, e o corpo no eixo.

É necessário joelhos destravados para o corpo fluir, boca entreaberta para o ar transitar, vetores da coluna despertos para uma postura ativa, cabeça bem posicionada para não interromper o alinhamento da coluna.

Perceber as alterações positivas em nosso corpo e também nos corpos do outros é estimulante, pela liberdade de saber que o corpo pode mais, pode ir além, pode se transformar, se a decisão for essa.

Em que momento as partes do meu corpo são convidadas a participar do movimento? Eu respeito esse tempo? Qual a duração? Quando termina? Por que interrompo esse fluxo? Permito que essa pesquisa aconteça ou só realizo?

Eu tenho um corpo. E ele é meu templo sagrado. Através dele e por ele, atingir minha alma, tocar o divino. E não há separação.

O que fizemos com nossos corpos? Como o deixamos? Isso é resultado de uma forma de “defesa”? Como podemos enfrentar essa vida que temos, a cidade que vivemos, sem descontar em nosso físico? Será que conseguimos fazer isso? Será que é uma questão de abstrair? Ou é somente uma questão de saber lidar com tudo isso?

É surpreendente perceber o quanto nosso corpo pode nos dar e o quanto limitamos a fazer com ele apenas o básico, ainda de forma “travada”, gastando energia e partes desnecessárias.

Entender que as partes do nosso corpo são independentes torna o ator mais consciente e permite que ele mantenha seu instrumento ativado. Assim, a criação ganha espaço para surpreender. Consciência e prontidão permitem que algo seja criado e a imaginação só é visível quando algo concreto é realizado. O corpo é um apoio.

E com nosso corpo vamos experimentando topografar nossos acidentes geográficos, necessários para a descrição e representação das nossas superfícies, localização, orientação, até nos embriagar em nosso próprio estado e fazer do nosso físico visível, invisível.

A respiração movimenta, traz estado, um corpo; ou o corpo traz essa respiração, esse estado? O que se passa e não foi dito, mas está ali naquele corpo?

É preciso (re)conhecê-lo. Ver qual parte precisa de cuidados, checar quando foi sua fabricação, se é necessário alguma manutenção ou limpeza, enfim, perceber cada detalhe de nosso instrumento. A partir de tal percepção é que é possível afiná-lo de acordo com as necessidades que tenho para a construção da minha poética.

Mudanças sutis dos apoios do corpo (como trocar o apoio dos pés, andando com os pés abertos, depois com o apoio na parte externa dos pés, depois com apoio na frente dos pés, ou o apoio do peito (tórax) para frente, depois com o queixo para frente) criam espaços novos, fazendo uma diferença no todo, trazendo um novo estado e ativando a imaginação para uma nova possibilidade de ser.

Ativar o “J” te permite dar leveza ou densidade, mais ritmo ou menos ritmo para acompanhar essa leveza ou essa densidade, aliadas à respiração. A massa ficcional atenta, percebendo e construindo a respiração, controlando o ritmo, vivo, magnético.

Herzog nos sugere um olhar para nosso corpo como uma caverna “intocada”, como devemos cuidar dele, fazer sua manutenção, observar, investigar, estudar; questões que provocam uma “arqueologia do corpo”.

Use seu corpo todo, não invalide seu pulmão, suas pernas, seus peitos, sua boca, toma consciência dos seus pontos de apoio, coluna, língua, diafragma, faça o texto passar pelo seu organismo e depois esqueça-se de si.

NAC 2014

CONSCIÊNCIA

Esta saga-procura não é feita apenas de leveza – para chegar no fundo da caverna a trilha é longa e obscura. Não existe google maps, GPS, bússola. Nossa SENSIBILIDADE é conduzida por um farol interior.  E neste perigoso mergulho sobre si serão encontrados diversos dragões.

A referência verdadeira é algo “encaixado” em nós.

O aroma que é presente por meio da ausência. A essência se pulveriza no ar silenciosa, discreta. E refina-se a dosagem conforme a sensibilidade do artista.

Podemos ter todos os recursos, mas precisamos ter um instinto eficaz. Sair do ambiente predestinado para romper estilos, padrões, modelos e antimodelos.

Cada ator/atriz é responsável por se perceber. Responsável por construir um estado de atenção, no qual seja possível avaliar, em sua subjetividade, cada descoberta, dificuldade, trava, tensão. E assim, colocar-se por conta própria numa situação permanente de pesquisa.

No estado de pesquisa, é fundamental a percepção das mudanças que ocorrem no corpo ou, pelo contrário, das dificuldades em aproximar o corpo cotidiano (embrutecido pela história e pelo trabalho) de um corpo-corpo, corpo-natureza, corpo-orgânico, corpo-animal, corpo-sensível, corpo-afetivo, corpo-instinto. O que está em jogo na formação atoral é o processo individual de RECONHECIMENTO de si, para que a partir de então ocorra o despertar de uma consciência pessoal e estética.

Fronteira  do corpo, fronteira do tempo, fronteira do outro. Algo dentro de mim ainda é do tempo que o chão era um só. Hoje a gente diz: de que chão você é? E isso te define. Por que olhar com os olhos carregados? Eu queria que vocês olhassem além dessa pele que se apresenta, queria arrancar essa pele para que vocês pudessem ver carne, órgãos, ossos. Eu não queria simplesmente olhar; mas, olhar além de, através de. Transolhar…

Por que nos apartar de nós mesmos por tanto tempo? Por que esquecemos de simplesmente ser? Ponto, acabou. Ser aquele momento presente, aquele jogo no presente. Ser, estar naquele tempo e espaço.

A busca pela consciência é eterna. Se colocar, se perceber. Reagir, Estimular. Diagnosticar nossas travas e vícios do cotidiano. “Ser, estar, parecer, permanecer…” Verbos de ligação são a verdadeira consciência.

Estou sendo racional? Talvez porque vejo que essa palavra tem tanto peso que se transforma em uma mala pesada para ser carregada.

NAC 2014

ARTISTA

Que tipo de artista somos? O que buscamos enquanto artistas? Qual é nosso projeto poético?

Cada indivíduo é singular, no seu jeito de caminhar, de estar, de apreender e, até mesmo, de se entender. Ninguém é igual, nenhum corpo é igual, por isso é necessário e único mergulhar com honestidade em si.

Artista é um bicho inquieto, um bicho que está sempre à procura de algo, que nunca se satisfaz, que tenta compreender o outro para entender a si próprio e vice-versa. Assumir seus pensamentos passageiros e se liberar de empreender um sentido unilateral às coisas e fatos ou até mesmo, em alguns casos, não buscar um sentido.

Dar visibilidade ao nosso invisível – caminho de busca da poética do nosso ESTAR. É o espaço primordial que devemos regressar para que daí, no escuro de nossas cavernas, a gente possa ouvir nosso próprio corpo-som. Dançar nossa própria música, perceber nossos odores, sentir nosso volume e, daí sim, permitir que a criação aconteça.

O artista, quando se coloca em cena, entra em contato com a sua comunidade, com seus pares. A arte é esta troca, este diálogo: é compartilhar a sensibilidade e se ligar aos outros seres humanos.

Porque o(a) ator/atriz se aliena de si para fazer teatro?

É sempre a gente – não podemos nos alienar da gente. Porém, é o eu imaginário que esta na obra, é o EU da imaginação, não o EU cotidiano.

Será que ser artista não é justamente se expor? Será esta é uma das doações do artista?

Ser-artista-estar-em-processo-de-percepção-mergulho-na-caverna-saga-do-arqueiro-herói-trajeto-sacrifício-doação-comunidade-estar-em-comunhão-essência-que-emana-que-aflora-cheiros-tonar-vísivel-o-meu-invísel-esculpir-o-tempo-espaço-de-dentro-pra-fora-deseteriotipar-despersonalizar-adentrar-perfumar-evaporar-me-para-estar-ser-ator-atriz.

Qual o procedimento para entender o espírito humano? Qual aspecto irei ressaltar? Qual caráter irei imprimir para essa personagem? Essas perguntas precisam ser respondidas com o entendimento do espírito. Abrir espaço para o seu espírito: ele que faz, não é você no impulso ou no ímpeto, é você na sua sensibilidade.

O melhor de mim está guardado num lugar tão profundo que nem arrancando as costelas, retirando os pulmões, adentrando com minúcias – nem assim. Uma das inquietudes do meu ser artista, vai me movendo no desejo de me expor. E falar em consonância com meu eu.

NAC 2014

Afeto

Afeto: Deixar de ser feto. Sinônimos: embrião, causa, começo, germe, origem, princípio, fermento, raiz, abertura, aurora, iniciação, início, nascença, ponta, preceito, rudimento. Fermentar nossos olhares. Abrir nossas perspectivas. Ir além da origem, do princípio, do início, da nossa raiz. Deixar de ser germe.

Em qualquer corpo há sempre um poder de ser afetado pelos encontros com outros corpos.

Afeto é uma intensidade que pode diminuir ou aumentar nossa potência de vida.

NAC 2014