ARTISTA
Entre o sacrifício e o prazer, o ator caminha. Ora caminha com um pé, ora com outro, para alcançar o equilíbrio entre ambos.
Para criar uma nova forma de expressão é necessário se investigar em um mundo não cotidiano, não lógico, amoral e atemporal. Não se trata de um exercício teórico. É preciso acessá-lo com o corpo livre, sensível e preparado, disciplina como liberdade, pois a comunicação tradicional não dá conta, a fala é insuficiente. Precisamos adentrar no “mistério de irradiação dos grandes mestres” se quisermos comunicar algo relevante, singular, artístico.
A arte afeta lugares muito íntimos e preciosos das pessoas – lugares sensíveis e de transformação, onde é possível, numa alquimia real, alterar as emoções e o corpo do outro.
Para o caminho do artista é preciso entusiasmo (do latim: Deus dentro). Não ser apenas criatura, mas também criador.
O corpo é a nossa casa, nossa ferramenta de artesão. É com esse pedaço de carne, ossos e tendões que afetamos o mundo. Devemos cuidá-lo com amor.
As coisas relevantes acontecem em um lugar sensível, para além da materialidade da cena. O que não se pode ver, o espiritual. Que possamos enxergar/ser o invisível. A arte do ator é corporificar o invisível.
Como nosso trabalho se dá com e para outro, faz parte do oficio do artista a alteridade, em que se possa criar outro parâmetro de relação para além do postulado.
A arte é sobreviver a cada dia com suas dores.
O artista trabalha com a construção de novos significados. Como criar meios claros de comunicação, fazendo com que nossas urgências sensíveis sejam percebidas pelo outro? É nesse momento que a técnica deve auxiliar a necessidade.
Na perspectiva do produto, nós somos inúteis, não rendemos altos valores do mercado capital e também não construímos para este fim. Nossa arte não é “útil”.
O lugar do artista: talvez não exatamente a sua função, mas o local de onde observa, e de onde apreende o real; um lugar de desconforto, de dissonância. O poeta não está em harmonia com a realidade; está quase como de fora daquilo que observa. O eterno embate entre o eu e o mundo.
Nosso objetivo não é nos preparar para fazer teatro, mas sim perceber como nos relacionamos (primeiramente como seres, em seguida como artistas) com os outros e com o mundo. É impossível dissociar nossos encontros da nossa vida fora deles.
Essa também é uma maneira de resistência: não parar, não parar e não parar.
Com a abertura a outros canais de percepção, com o ganho de consciência do próprio estado físico e mental e ambientados nesse lugar sagrado que possibilita a fundação de uma estética própria e sensível, podemos dizer não aos nãos e nos manter firmes na caminhada.
O ato de pensar teatro costuma estar tão distante da compreensão do cidadão no cotidiano que temos que levantar o diálogo sobre qual a necessidade da arte.
A amplitude que se exige em ocuparmos uma posição de artista que contribua com a sociedade é severa, não admite superfícies rasas e vai muito além das finas camadas, dos baixos conceitos, do entretenimento geral.
NAC 2016