DISPONIBILIDADE
Quando abraçamos cada endurecimento, dor e dificuldade, começamos a sentir prazer, o prazer de estar presente.
Devemos nos abrir e ser espaço para a experiência, para que assim a obra de arte haja como ela é, transforme como foi feita para transformar.
Exige uma entrega de alma. O(a) ator/atriz se assemelha a uma folha em branco, ele simplesmente está.
Ao nos lançarmos em um abismo, com o tempo, deixaremos nossa natureza agir em conformidade com nós mesmos. Confiemos nela e isso nos acarretará liberdade.
Uma desconstrução de vícios corporais e intelectuais é necessária para uma construção poética.
Nossa capacidade de sentir está em se relacionar com o mundo que existe agora. Só é possível ter qualidade sensível no presente, pois é onde está a escuta, a respiração, o novo e o imprevisível. É só com atenção ao presente que se pode estar em estado de disponibilidade.
Trata-se de um processo muito desconfortável, sair do que nos é familiar e adentrar camadas ocultas, cheias de traumas e calcificadas pelo tempo: nisso também consiste o trabalho atoral.
Desconstruir para depois organizar. Tirar as máscaras, as marcas ocultas do tempo em nossos corpos. Desnudar-se para em seguida se vestir.
Devemos estar abertos ao novo, à surpresa, ao desconhecido mundo que temos interiormente e pouco conhecemos. Assim seguiremos nus, para além das carcaças registradas em nosso cerne cotidiano pouco diagnosticado por nós mesmos até então.
O lugar de suspensão é para ser sentido, não julgado. Algo que está além das meras palavras. É complexo. Esse lugar, esse estado de poesia, vem quando se permite ser desalojado pelo outro.
NAC 2016