AlmaNAC: o blog do Núcleo de Artes Cênicas

junho 21, 2023

POÉTICA

Na ausência, propomos um estado existencial para a personagem, porém outras coisas acontecem nas frestas desse estado, e é por meio da respiração, do respiro do olhar e de todo o corpo que permitimos que outras sensações e camadas apareçam e que fiquemos vivos, humanos, paradoxais e estranhos. Nesse lugar, palavras não são  jogadas ao vento, ganham outra dimensão, outros sentidos, os gestos não são mais prosaicos, transcendem, dessa forma, é possível ver o visível conter o invisível. 

A busca, que torna a criação interessante e hipnótica, vem do encontro sensível das suas inquietações como artista e ser humano, com as condições determinadas no texto. Vem de dentro, vem do invisível, dos sonhos, da inconsciência, das histórias não vividas, do portal que é o outro. 

Uma construção que não é uma construção, mas sim uma busca de estar ENTRE, de tornar material a nossa imaginação, de pronunciar as palavras de um outro ser e possibilitar a imaginação deslanchar (a de quem faz e de quem assiste). Enxergar a árvore e ver que existe uma floresta inteira por trás. 

Se a água estiver parada e suja, não vai nascer a dengue. Tua água está suja? Minha água está suja? Eu ando bebendo dela e nem senti o gosto. Agora se a água está limpa… você não vê nada acontecendo ali. Ela só está ali, mas quando você menos espera aparece uma larva. De repente, o mosquito voa e te pica. E aí, é a coisa acontecendo. 

Temos que ter tesão em fazer, mas temos que ter tesão em buscar, investigar, cavucar, encontrar aquele lugar dentro de nós que guarda tudo o que temos de mais sombrio e de mais sublime. 

Para o invisível aparecer tem que ter a quietude do visível.

Devemos continuar rumando ao desconhecido buscando a instauração da “coisa”. Sigamos para achar a necessidade espiritual para comunicar o texto.

Como se colocasse uma lente de aumento em nossos olhos para enxergarmos que atrás da casca bonitinha existe um lado cruel, uma ferida que se mostra, existe um algo a mais.

Os jogos poéticos são altamente complexos e desafiadores. Não há chances de que eles sejam produtivos e prazerosos se não conseguirmos nos afastar de nós mesmos em algum sentido. E é aí que se instaura a densidade da problemática. Como me ausentar de mim mesmo? Quanto eu me ausento? Qual o equilíbrio?

Em situação de ausência é a própria criatividade que se manifesta livre, disposta a me surpreender em um estado tal de presença que substitui o esquemático pelo sensível.

Cada indivíduo é um planeta. Um planeta cheio de fluidos, defesas, composto de inúmeros seres. Temos vulcões dentro de nós. Somos mares, montanhas. Tenho o azul do céu e o preto do petróleo. Temos veias, vasos, valetas, rachaduras, ondulações (…) Procuro em meu corpo algo redondo, acho poucas referências. Mas então penso na fluidez da vida. O ritmo. O ciclo. Redondo. Tudo que nasce, morre. E de repente volto para o infinito. Somos um infinito de redondos. E em uma galáxia temos os “entres”. Os espaços. Um lugar cheio de possibilidades. De estrelas, cometas, meteoros, cores,
imprevistos. Vácuos. Relações. Infinito.

Após muito se debruçar sobre o SER, sobre si e sobre si nas condições do texto, aos poucos podemos trazer o ESTAR (nosso estar poético). 

Não tem como não ficar hipnotizado ao ver alguem entrando no estado poético, quando senta na cadeira, parece que tem um peso ali que não é o peso natural dele, parece que junto com ele senta mais alguém, não sei explicar, fico procurando a mágica às vezes, mas não tem como achar a olho nu.

NAC 2014