AlmaNAC: o blog do Núcleo de Artes Cênicas

maio 24, 2023

OUTRO

Que tipo de cuidado direciono e semeio? Qual o cuidado tenho para não reduzir o ser, não subestimar a dor do outro? Somos por essência criaturas do cuidado. 

Eu sou o outro refletido sob minha ótica (pois, é preciso ter uma). Eu sou um espelho, que a todo instante, gera reflexos de mim mesmo em variadas cores, expressões, aparência e gêneros. O que eu vejo no outro sou eu expurgando minhas camadas?

Colocar o texto na boca? Na boca só não, no coração! Escrever nos poros aquelas palavras. Esfregar uma história que você não viveu na sua pele, desenhar com a sua musculatura aquela experiência. Se deixar permear pelo outro, mas não ser o outro, não ser você, mas não deixar de ser você, e sim “estar o outro” em você. Um terceiro elemento, uma composição. Porém, para existir composição, deve existir espaço, senão vira borrão.

Qual a delicadeza que temos que ter com a vida do outro? Com a história de outro ser? Será que analisamos o outro melhor do que a nós mesmos?

Como preservar sua subjetividade, seu ideal sem ser extremista e limitante? Devemos sim ter nossa individualidade, mas do que vale uma individualidade se ela é inflexível e ditatorial. Como defender nosso eu, nosso ideal, mas sem fechá-lo para a interferência do outro. Como o “eu” do outro me afeta? 

Será que consigo me esquecer no outro? Não fico na coisa, ela me transporta. Às vezes o que interessa é o que você não vê, o que está atrás. Brinque de falar o que não está vendo e se “esquecer no outro”.

O encontro com o outro nesse deserto incerto. O olhar atento, sensível e presente, que possibilita o encontro mais simples de si mesmo no olhar espantado do outro ser. Como olhar realmente nos olhos do outro e se permitir contaminar e ser contaminado?

NAC 2014